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REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DE TUTORES NA FORMAÇÃO DO PSICÓLOGO EM RESIDÊNCIA MULTIPROFISSIONAL EM SAÚDE

O nosso objetivo nesta seção é contribuir com a aprendizagem da pesquisa qualitativa e, sua aplicação prática, servindo como um guia para aqueles que estão no processo de conhecimento, formação e aprimoramento nessa temática.

Para isso, compartilhamos artigos científicos acompanhados de um breve roteiro reflexivo de leitura, bem como as respostas elaboradas para orientar a análise dos textos, a fim de ampliar sua compreensão sobre os aspectos teóricos e metodológicos da pesquisa qualitativa.

REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DE TUTORES E PRECEPTORES NA FORMAÇÃO DO PSICÓLOGO EM RESIDÊNCIA MULTIPROFISSIONAL EM SAÚDE

Prata, M. de O., Achkar, A. M. N. E., & Costa Neto, S. B. da. (2025). Representações sociais de tutores e preceptores na formação do psicólogo em residência multiprofissional em saúde. Boletim De Conjuntura (BOCA)23(69), 123–148. https://doi.org/10.5281/zenodo.17216701

RESUMO DO ARTIGO

A participação de profissionais da saúde nos Programas de Residência Multiprofissional em Saúde tem crescido de forma significativa em diversas regiões do Brasil nos últimos anos. Com o crescimento observado, percebe-se uma valorização crescente e uma redefinição dos papéis do preceptor e do tutor, que passam a ocupar posição central na formação em serviço.

O presente estudo teve como objetivo identificar e discutir os elementos representacionais construídos e compartilhados por profissionais da Psicologia que atuam como tutores e/ou preceptores, no âmbito da formação oferecida e desenvolvida em PRMSs, no que se refere à formação e  qualificação  profissional. 

Trata-se  de  um  estudo  caracterizado  como  qualitativo  em  uma  pesquisa  exploratória  e  descritiva  com dados transversais, pautado na Teoria das Representações Sociais (TRS). Participaram sete psicólogos que atuavam como tutores e preceptores na Residência Multiprofissional em Saúde, de um hospital público localizado em Goiânia, no estado de Goiás.

Os dados foram coletados em outubro de 2024 por meio de um grupo  focal, com a finalidade de aprofundar  as  percepções  e  representações  elaboradas  pelos  participantes,  e  um  questionário  do  tipo  típico  que  incluía  a  seguinte questão: “O que vem à sua mente quando você pensa na RMS? ”. O tratamento dos dados foi realizado  com o apoio do software Requalify.ai  e  interpretados  seguindo  a  análise  de  conteúdo  temático-categorial. 

Em síntese, os resultados evidenciaram que as  representações  sociais  construídas  pelos  participantes  refletiram  uma  experiência  formativa na  RMS  marcada  por  desafios, responsabilidades,  frustrações  e  desvalorização,  mas  também  permeada  por  oportunidades  de  aprendizado e  fortalecimento  das  práticas  colaborativas  no  trabalho  em  equipe. 

Em conclusão,  as  atribuições  dos  preceptores  e tutores  carecem  de  uma  definição  precisa,  o  que  evidencia  a  importância  do  reconhecimento  dessas  funções  e  da  capacitação profissional especializada. 

Palavras-chave: Formação de Psicológos; Preceptoria; Residência Multiprofissional; Representações Sociais; Tutoria.

Guia e Reflexões sobre o artigo

1. Qual é o tema da pesquisa? Por que esse tema pode ser investigado por meio de uma abordagem qualitativa?

O tema abordado na pesquisa relaciona-se com às representações sociais dos profissionais psicólogos sobre sua atuação como tutores e preceptores no processo formativo da Residência Multiprofissional em Saúde. Nesse sentido, o artigo expressa que: “o problema dessa pesquisa se constrói em torno de uma questão central: como os psicólogos que atuam como tutores e preceptores representam as práticas formativas no programa de RMS?”.

A sua vez, os autores evidenciam a relevância do estudo já que discutir os elementos representacionais construídos e compartilhados por profissionais da Psicologia que atuam como tutores e/ou preceptores, possibilita preencher uma lacuna do conhecimento: “(…) a carência de publicações nacionais e internacionais que se proponham a investigar, identificar e discutir os elementos representacionais construídos e compartilhados por profissionais da Psicologia que atuam como tutores e/ou preceptores, no âmbito da formação oferecida e desenvolvida em Programas de Residências Multiprofissionais em Saúde (PRMSs), é que o estudo proposto, ao buscar preencher essa lacuna, se justifica pela relevância dessa investigação a respeito da tutoria e da preceptoria enquanto práticas fundamentais para a formação e a qualificação dos psicólogos nos PRMSs”.

Ao justificar a pesquisa, os autores permitem compreender os motivos da escolha do tema, sua pertinência para a formação e qualificação dos psicólogos nos programas de residência.

Além disso, a pesquisa centra-se nos discursos, percepções e significados atribuídos pelos tutores e preceptores ao seu próprio papel formativo. Tais aspectos são produzidos e compartilhados socialmente, estando relacionados às experiências dos sujeitos e aos contextos nos quais estão inseridos. Assim, compreender as contribuições e os desafios da tutoria e da preceptoria na formação dos residentes psicólogos constitui uma questão coerente com os pressupostos da pesquisa qualitativa.

2. Quais são os objetivos do estudo? Eles estão claramente apresentados pelos autores?

Os objetivos estão claramente expostos no texto e referem-se a “identificar e discutir os elementos representacionais construídos e compartilhados por profissionais da Psicologia que atuam como tutores e/ou preceptores, no âmbito da formação oferecida e desenvolvida em Programas de Residências Multiprofissionais em Saúde (PRMSs)”.

Assim, tais objetivos são coerentes com o tema investigado e com sua natureza qualitativa, concentrando-se em identificar e compreender as representações elaboradas pelos profissionais no âmbito dos PRMSs. Portanto, o objetivo está alinhado com os princípios da pesquisa qualitativa, ao se interessar pelas experiências e comportamentos humanos e; compreender a forma como os seres humanos interpretam sua realidade social, que ocorre em interação com os outros.

3. Qual é o marco teórico adotado pelos autores? Como ele contribui para compreender o problema de pesquisa?

O marco teórico adotado pelos autores é a Teoria das Representações Sociais (TRS), desenvolvida por Serge Moscovici. Particularmente, a aplicação da Teoria das Representações Sociais (TRS), mostra-se pertinente para esse tipo de estudo, pois permite identificar as imagens, significados e atitudes que um determinado grupo constrói sobre um objeto. Isso possibilita compreender como se dá a construção dos discursos e a atribuição de sentidos dentro do grupo”.

Além disso, o marco teórico selecionado contribui para a reflexão sobre as práticas de formação dos tutores e os desafios no processo de formação de residentes, considerando aspectos relacionados a estratégias pedagógicas, à organização curricular e ao desenvolvimento de habilidades técnicas e interpessoais.

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Por isso, o marco teórico visa compreender como os tutores interpretam seu papel formativo e quais são os significados construídos em torno de sua prática, no contexto da formação de profissionais de saúde, que atendem às necessidades da população a ser atendida e às diretrizes estabelecidas pelas políticas públicas de saúde.

Dessa forma, os autores justificam a escolha desse marco teórico ao destacar que seu interesse reside em compreender os fenômenos coletivos, as normas e os processos sociais que influenciam a construção do pensamento e das representações. Nesse sentido, as representações sociais constituem uma ferramenta teórica adequada para compreender como os sujeitos atribuem significados à sua experiência e como esses significados são construídos e compartilhados socialmente.

4. Como o marco teórico orienta a escolha metodológica?

O marco teórico proposto pelos autores orienta a escolha do método de coleta e análise dos dados, uma vez que a Teoria das Representações Sociais, neste estudo, busca compreender os significados atribuídos pelos tutores à sua prática formativa no contexto dos estágios multiprofissionais na área da saúde. Nesse sentido, o objeto de estudo inclui os discursos, significados e percepções dos participantes da pesquisa; diante disso, a escolha de um método que permita captar e analisar tais conteúdos seria a mais adequada.

Na pesquisa qualitativa, esses discursos podem ser abordados por meio de instrumentos qualitativos, como os propostos pelos autores: questionários com perguntas abertas e grupos focais; sendo esses dados interpretados por meio da Análise de Conteúdo, uma vez que permite identificar os núcleos de sentido, temas recorrentes e significados presentes nos relatos dos participantes. Dessa forma, a elaboração de categorias analíticas permite organizar e interpretar os conteúdos dos discursos, contribuindo para a compreensão das representações sociais compartilhadas pelos tutores sobre seu papel no processo de formação dos residentes.

5. Como os autores analisaram os dados produzidos? Poderia descrever os passos para desenvolver a análise de conteúdo de tipo temática?

Em primeiro lugar, os dados foram coletados por meio de instrumentos qualitativos, como questionários com perguntas abertas e grupos focais, e foram analisados por meio da Análise de Conteúdo.

As etapas propostas pelos autores no processo de análise foram as seguintes:

1) Transcrição das gravações dos participantes

2) Posteriormente, o artigo destaca o trabalho de análise em duas vertentes: por um lado, o trabalho manual dos pesquisadores para identificar temas nos dados coletados, por meio da identificação de unidades de análise; e, por outro lado, o uso do software Requalify para auxiliar na revisão das categorias e na análise semântica.

No que diz respeito ao trabalho manual, os autores descrevem essa etapa da seguinte forma:

1. Leitura atenta e familiarização: a primeira etapa envolve uma leitura cuidadosa e repetida do texto, buscando compreender o contexto geral e as ideias principais;

2. Identificação de unidades de análise: as unidades de análise são fragmentos do texto que carregam significado relevante para a pesquisa. No caso, podem ser frases, parágrafos ou até mesmo palavras-chave;

3. Codificação aberta: nesta etapa geralmente, as unidades de análise são codificadas com etiquetas ou categorias que descrevem o conteúdo de forma abstrata e geral;

4. Revisão e agrupamento de códigos: após a codificação aberta, os códigos são revisados e agrupados em categorias mais amplas e abrangentes;

5. Definição de categorias e subcategorias: as categorias e subcategorias são definidas com base nos códigos agrupados, descrevendo os temas e padrões emergentes nos dados;

6. Análise interpretativa: a análise interpretativa busca compreender o significado das categorias e subcategorias, relacionando-as com o contexto da pesquisa

6. Analisando/aprendendo com o requalify: Como as ferramentas do requalify auxiliam ao pesquisador para compreender os resultados?

Durante a análise dos dados, os autores utilizaram à nuvem de palavras para identificar os temas de interesse, complementando o trabalho manual dos pesquisadores. Isso permitiu visualizar os temas centrais e mais relevantes, bem como explorar as relações e conexões hierárquicas entre os conceitos. Posteriormente, os temas foram explorados por meio do uso do Requalify para avaliar sua fundamentação nos dados da pesquisa.

Assim, o uso do Requalify auxiliou na organização e visualização dos conteúdos, explorando as frequências das palavras-chave, a semelhança semântica e a estrutura gramatical, por meio do recurso de identificação de tags ou categorias, utilizado como etapa inicial para a identificação de subtemas no texto.

7. Quais são os principais resultados ou categorias encontradas?

Os principais resultados são estruturados em eixos temáticos, que incluem as respectivas categorias de análise.

EXPERIÊNCIAS, APRENDIZAGENS, DESAFIOS E OPORTUNIDADES

O primeiro eixo está associado às seguintes categorias:

Categoria 1: Sensações Contraditórias da Experiência

Refere-se à convivência de sentimentos ambivalentes vivenciados pelos preceptores e tutores da RMS. A intensa convivência entre tutores, preceptores e residentes, aliada às frustrações recorrentes das expectativas depositadas pelos residentes, evidenciou situações de sobrecarga e desgaste emocional.

Esses sentimentos, impactaram significativamente a forma como compreendiam e exerciam suas funções. Portanto, a qualidade da mediação pedagógica quanto o envolvimento afetivo dos tutores com o processo de formação em saúde, encontram-se afetados.

Categoria 2: Aprendizado e Oportunidades do Processo Formativo.

Alguns participantes destacaram sua experiência prévia na Residência, apontando que os preceptores da formação serviram como referência. Eles inspiraram modelos positivos ou exemplificaram condutas que os profissionais decidiram evitar em suas práticas.

Categoria 3: Desafios e Carga de Trabalho na Residência

A residência apresenta-se pelos participantes como desafiadora e exaustiva, com uma carga de trabalho considerada excessiva. Portanto, os tutores e preceptores destacaram a necessidade de gerenciar a sobrecarga de responsabilidades, o que poderia resultar em estresse e desgaste emocional. Embora a residência proporcionasse aprendizados significativos, também impôs obstáculos como a intensa carga horária e a constante necessidade de enfrentar o esgotamento físico e emocional.

NECESSIDADE DE FORMAÇÃO ESPECÍFICA, IMPORTÂNCIA DO AUTOCUIDADO E ESCUTA QUALIFICADA

Por outro lado, o segundo eixo denominado está relacionado às categorias:

Categoria 4: Necessidade de formação específica

Os participantes enfatizaram a necessidade de contar com tutores com formação específica para suas funções, para garantir um planejamento pedagógico mais eficaz e um compromisso social que respondesse às demandas de ensino, pesquisa e extensão.

Categoria 5: Importância do autocuidado e escuta qualificada.

Por último, as frustrações vivenciadas no exercício profissional tendem a se sobrepor às experiências gratificantes, impactando negativamente a saúde mental e o bem-estar. Nesse contexto a valorização do autocuidado e da escuta qualificada ganha destaque nas narrativas, evidenciando sua importância como estratégia de enfrentamento. Os participantes enfatizaram que um dos principais desafios no contexto da residência multiprofissional é a efetivação de um acolhimento sensível, sustentado por uma escuta atenta e individualizada voltada aos residentes.

Finalmente, é importante observar que junto com cada categoria, o texto apresenta os trechos dos discursos dos participantes. Essa estratégia ilustra de forma concreta a construção das categorias analíticas e sua fundamentação empírica.

8. Quais são as limitações do estudo?

Principalmente, as limitações estão associadas ao número reduzido de tutores e preceptores que participaram da pesquisa, o que compromete a possibilidade de generalização dos resultados, além da exclusão de RMSs vinculadas a diferentes instituições, o que restringe a abrangência dos achados.

Específicamente, apresentar as limitações do estudo permite interpretar os resultados com mais cuidado e identificar aspectos para futuras pesquisas.

9. Que novas questões de pesquisa poderiam surgir a partir deste estudo?

Os autores destacam a relevância da elaboração de relatos de experiencia, já que os resultados representariam ao sujeito que está envolvido na prática e na formação da residência, promovendo diálogos mais próximos no fazer profissional.

Assim, uma temática possível refere-se às perspectivas e representações dos residentes sobre o processo formativo a fim de complementar os achados do presente estudo, e considerando os profissionais que estão sob orientação dos tutores.

CONHECENDO OS AUTORES

Marcia de Oliveira Prata: Doutoranda em Psicologia Social pela Universidade Salgado de Oliveira UNIVERSO (2021). Mestre em Psicologia pela PUC-Goiás (2015). Possui Pós-Graduação “Lato Sensu” em Psicopatologia Clínica pela Universidade Castelo Branco-RJ (2011). Especialista em Saúde Coletiva pela UFU (2000). Possui título de Especialista em Psicologia Clínica e Psicologia Hospitalar conferido pelo CRP. Especialista em Sofrimento Psíquico e Técnicas Psicoterápicas em Saúde Mental. Atuou como Chefe de Setor de Psicologia da Saúde do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (2009-2011). Atualmente exerce atividades profissionais no HC-UFU e consultório particular. Exerce a função de Tutora e Preceptora da Residência Multiprofissional em Saúde no HC da Universidade Federal de Uberlândia.

Ana Maria Nunes El Achkar. Professora do Programa de Pós-graduação em Psicologia – PPGP (mestrado e doutorado) da Universidade Salgado de Oliveira (UNIVERSO). Pedagoga, Psicopedagoga, Mestre e Doutora com Pós-Doutorado em Psicologia (Universo) e em Psicologia Social pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ. Presidente da Comissão de Bolsas do PPGP/UNIVERSO. Coordenadora do GT Saúde Comunitária: Bem-estar, Políticas Públicas e Intervenção da ANPEPP (Biênio 2024 – 2025).

Sebastião Benício da Costa Neto.

Professor Adjunto II, orientador de mestrado e doutorado no Programa de Pós-Graduação (PPG) em Psicologia, da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás). Líder do Grupo de Pesquisa Clínica, Subjetividades e Saúde CSUS, da PUC Goiás. Psicólogo hospitalar da Universidade Federal de Goiás (1994-atual), com atividades de ensino, extensão, pesquisa e intervenção, no Hospital das Clínicas-EBSERH. Colaborador/Orientador de Doutorado em Psicologia na Universidad de Ciencias Empresariales y Sociales de Buenos Aires – UCES. Possui graduação, Licenciatura e Bacharelado em Psicologia pela PUC Goiás (1988). Especialização em psicologia hospitalar (CEPAN/Goiânia, 1988). Mestrado em Psicologia pela Universidade de Brasília – UnB (1994). Doutorado em Psicologia pela UnB (2002). Estágio doutoral no Hospital Universitário Gregório Marañon/Unidade Oncológica Príncipe de Astúrias.

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