O nosso objetivo nesta seção é contribuir com a aprendizagem sobre os diferentes usos do Requalify em pesquisas, especialmente nas áreas da saúde e da educação. Nesta ocasião, abordaremos a formação de enfermeiros e a inclusão da medicina tradicional indígena.
O artigo se acompanha de um breve roteiro reflexivo de leitura e das respectivas respostas comentadas, com o objetivo de orientar a análise dos textos e ampliar a compreensão sobre a temática, as escolhas metodológicas e as diferentes possibilidades de aplicação do software de Requalify.

Nascimento, V.F., Terças-Trettel, A.C., Gregolin, C.S., Rangel, A.R., Carmo, H.O., & Martins, M.S. (2025). Medicina tradicional indígena na formação de enfermeiros e subsídios para práticas avançadas. Acta Paul Enferm., 38: 1-9. https://www.scielo.br/j/ape/a/sjxVvZqY4FL9f6CM43DktgD/?format=pdf&lang=pt
Resumo
O presente estudo qualitativo, de caráter documental, aborda a medicina tradicional indígena e sua contribuição para a formação de enfermeiros no estado de Mato Grosso. A pesquisa foi desenvolvida com a primeira turma do curso de Enfermagem Intercultural Indígena da Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT), a partir do acervo documental produzido durante as atividades realizadas pelos estudantes. Para a análise dos dados, os autores utilizaram o software Requalify, organizando os resultados em três categorias de análise. O estudo possibilita compreender as contribuições da medicina tradicional indígena para a formação em Enfermagem, valorizando as perspectivas dos estudantes indígenas e os saberes tradicionais no contexto da educação intercultural.
Guia e Reflexões sobre o artigo
1. Qual é o tema da pesquisa?
O tema da pesquisa é a contribuição da Medicina Tradicional Indígena (MTI) no curso de enfermagem intercultural indígena da Universidade Estadual do Mato Grosso (UNEMAT). O estudo se justifica pelo fato de que a MTI ainda é abordada de forma limitada nos cursos da área da saúde, apesar da relevância social de integrar os saberes tradicionais à formação em saúde.
Além disso, existem serviços voltados para a atenção à comunidade indígena, como o Subsistema de Atenção à Saúde Indígena do Sistema Único de Saúde (SasiSUS), nos quais os profissionais de saúde geralmente não possuem formação específica para interagir com as práticas tradicionais de cuidado. Nesse contexto, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Pan-Americana da Saúde reconhecem a importância de articular os conhecimentos da medicina ocidental com os conhecimentos tradicionais, de modo que os profissionais de saúde atuem em conjunto com as figuras de referência das comunidades indígenas, como curandeiros, parteiras, pajés, entre outros.
O curso da UNEMAT se destaca por ser a primeira universidade a incorporar conhecimentos tradicionais de forma transversal ao currículo do curso de Enfermagem Intercultural Indígena. Assim também, o curso conta com professores indígenas e reúne alunos pertencentes a diversas etnias indígenas do Brasil, fortalecendo uma proposta de formação intercultural voltada para o reconhecimento e a valorização dos conhecimentos tradicionais.
2. Quais são os objetivos do estudo?
O objetivo é investigar as contribuições da MTI na formação de enfermeiros e sua contribuição para o desenvolvimento de práticas mais integradas em saúde.
3. Qual é o desenho metodológico do estudo?
Trata-se de uma pesquisa qualitativa, do tipo documental, de caráter exploratório. O estudo utilizou um acervo documental digital do primeiro grupo de estudantes, especificamente a primeira atividade realizada pelos alunos indígenas sobre o tema da Medicina Tradicional. Foram excluídos dois estudantes com formação acadêmica anterior. Além disso, o período selecionado foi março e abril de 2024, pois é o período intermediário em que os alunos realizam atividades nas comunidades sob supervisão docente.
Específicamente, os dados mencionados foram coletados on-line em novembro de 2024 por um membro da equipe, com experiência em pesquisa documental.
4. Como os autores analisaram os dados produzidos?
A análise dos dados foi realizada por meio da análise temática, com o auxílio do software Requalify. Em um primeiro momento, o processo envolveu a criação de um banco de dados a partir do download das atividades do curso em formato online. Posteriormente, as transcrições foram inseridas na plataforma do software, que identificou e organizou as informações em temas ou unidades de significado. Esse processo baseou-se na identificação da frequência dos temas e no agrupamento semântico dos conteúdos.
É importante destacar que os pesquisadores revisaram criticamente os resultados propostos pelo software, o que os levou a redefinir alguns temas e a elaborar novas categorias de análise de natureza dedutiva, com base no marco teórico da abordagem da MTI. Portanto, o processo analítico combinou o trabalho automatizado do software com o trabalho interpretativo dos pesquisadores.
Por fim, é importante mencionar que, após a análise dos dados, a pesquisa compartilhou os resultados com os participantes para que estes pudessem avaliá-los, embora não tenham indicado nenhuma alteração nos mesmos. Esse procedimento na pesquisa qualitativa é fundamentalmente ético, uma vez que os participantes são colaboradores durante o processo de pesquisa, seus discursos são utilizados e inferências são feitas sobre um determinado fenômeno; por isso, eles podem ter acesso e aprovar a publicação dessas conclusões (Minayo & Guerriero, 2013).
Por sua vez, o estudo, por envolver seres humanos e a população indígena, obteve a aprovação do comitê de ética.
5. Quais são os principais resultados ou categorias encontradas?
O artigo apresenta que participaram 48 estudantes indígenas, sendo 75% do sexo masculino e 49% com idades entre 36 e 50 anos. Se elaboraram três categorias de análise: valorização cultural e potencialidades da MTI, formação acadêmica em enfermagem intercultural e contribuições da MTI para a prática profissional do enfermeiro.
A seção de resultados se organizou, inicialmente, com a apresentação das conclusões em nível interpretativo e, em seguida, complementada com trechos dos dados empíricos, ou seja, da entrevista que exemplifica tal interpretação.
Valorização cultural e potencialidades da MTI
A MTI faz parte da cultura da comunidade e, portanto, do seu cotidiano; é por isso que se destaca a importância de sua inclusão no curso de formação. Além disso, ela permite valorizar esses conhecimentos tradicionais e, ao ser discutida no âmbito acadêmico, possibilita sua continuidade e implementação para ampliar as práticas dos profissionais.
Quanto às potencialidades da MTI, se observa que sua prática apresenta baixo risco e pode se implementar em localidades com acesso limitado a serviços de saúde, uma vez que se trata de práticas eficazes e seguras; permitindo a articulação com os representantes da comunidade indígena.
Formação acadêmica de enfermagem intercultural
A categoria mencionada conclui que, os alunos consideram que a formação em MTI contribui para a promoção de diferentes conhecimentos na área da saúde, o que os capacita na hora de tomar decisões sobre os métodos terapêuticos mais adequados.
Contribuições da MTI para a prática profissional do enfermeiro
Nessa última categoria, os participantes consideram que os conteúdos da MTI permitem uma formação abrangente do enfermeiro, que pode utilizar essas ferramentas em diferentes casos e tipos de doenças. Da mesma forma, discute-se a importância de incluir esses conteúdos, visto que eles permitem ao enfermeiro atuar em comunidades indígenas. Desse modo, torna-se possível desenvolver relações positivas com seus membros e estabelecer confiança, o que constitui um aspecto central para a atenção à saúde.
6. Quais são as limitações do estudo apontadas pelos pesquisadores?
Em primeiro lugar, uma das limitações apresentadas é a barreira linguística, já que o português não é sua língua materna. Somado a isso, é possível que tenha havido certa resistência em relatar situações que evidenciassem o enfraquecimento das práticas culturais
CONHECENDO OS AUTORES
Vagner Ferreira do Nascimento
Graduado em Enfermagem e Obstetrícia pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT-2008). Doutor em Bioética – CUSC/SP (2018). Atualmente, Docente Adjunto V da Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT). (Informações do curriculo lattes http://lattes.cnpq.br/4134268880865735).
Ana Cláudia Pereira Terças
Enfermeira pela Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal (2005). Mestre em Saúde Coletiva pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) (2011). Doutora em Medicina Tropical pelo IOC/FIOCRUZ (2016). Docente Adjunta e coordenadora do curso de Enfermagem Intercultural Indígena da Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT) desde 2023. Docente Permanente do Programa de Pós-graduação strictu sensu em Saúde Coletiva da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), campus de Cuiabá. (Informações do curriculo lattes http://lattes.cnpq.br/9144280121462086).
Cristina Schmitt Gregolin
Bacharel em Enfermagem pela Universidade Federal de Mato Grosso (2016). Mestre em Ciências da Saúde na mesma instituição em 2020. (Informações do curriculo lattes http://lattes.cnpq.br/0992190383727174).
Ana Raquel Florindo Mateus Rangel
Hercules de Oliveira Carmo
Professor Doutor I em Regime de Dedicação Integral à Docência e à Pesquisa (RDIDP), junto ao Departamento de Orientação Profissional (ENO) da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (EEUSP). Docente Permanente do Programa de Pós-graduação em Gerenciamento em Enfermagem (PPGEn). Doutor em Ciências pelo PPGEn da EEUSP, Mestre em Saúde e Tecnologia Hospitalar (UNIRIO). Graduado em Enfermagem pelo Centro Universitário Teresa d’Ávila (UNIFATEA). (Informações do curriculo lattes http://lattes.cnpq.br/1215968745520641).
Maristela Santini Martins
Professora Doutora junto ao Departamento de Orientação Profissional (ENO) da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (EEUSP) em Regime de Dedicação Integral à Docência e à Pesquisa (RDIDP). Doutora em Ciências pelo PPGEn da EEUSP, 2015. Mestre em Enfermagem pelo Programa de Pós-Graduação em Enfermagem (PPGE) da EEUSP, 2008. Graduada em Enfermagem pelo Centro Universitário Adventista de São Paulo, 2002. (Informações do curriculo lattes http://lattes.cnpq.br/9571473474329827).
Referência
Minayo, M. C. S., & Guerriero, I. C. Z. (2014). Reflexividade como éthos da pesquisa qualitativa. Ciência & Saúde Coletiva, 19(4):1103-1112. https://www.scielo.br/j/csc/a/DgfNdVrZzZbN7rKTSQ8v4qR/?format=html&lang=pt

